O medo pode paralisar alguns no início, mas ele tem um efeito colateral devastador para Washington: ele une os amedrontados
Donald Trump não age por loucura; age por um desespero calculado. Ele é testemunha ocular da erosão da hegemonia dos Estados Unidos e tenta estancar essa sangria repetindo os mesmos vícios que a provocaram: a coerção desmedida, o excepcionalismo arrogante e o uso do dólar como chicote para disciplinar o mundo.
Seus movimentos ignoram a cartilha diplomática clássica. O que vemos é um mercantilismo transacional de curto prazo. É a política do choque: pressão total para ganhos imediatos. Em bom português: o negócio dele é grana e poder bruto. O objetivo não é estabilizar o planeta, mas garantir a manutenção de uma pirataria secular que agora precisa de novos disfarces para sobreviver.
Acontece que a intimidação pelo medo cobra juros altíssimos. Em vez de obediência, Trump está colhendo uma revisão global de dependências. O medo pode paralisar alguns no início, mas ele tem um efeito colateral devastador para Washington: ele une os amedrontados. Ele empurra governos e blocos inteiros a buscar rotas de fuga, cadeias de suprimento próprias e novas coalizões que ignorem as ordens da Casa Branca.
Nesse cenário, os EUA caminham para um isolamento sem precedentes. A ideia de que Washington é o “centro inevitável” do mundo ruiu. Quando a previsibilidade vira moeda rara, o mundo busca outros portos. Trump opera como um fornecedor que viciou seus aliados – especialmente os europeus – em um sistema de segurança e consumo, e agora, num estalo, retira a rede de proteção e impõe tarifas agressivas. O “amigo” de ontem virou o agressor de hoje.
O choque europeu não é moral, é instinto de sobrevivência. Se a lealdade aos americanos virou um passivo econômico, a Europa vai fortalecer sua própria indústria e defesa. É aí que a Groenlândia surge no discurso dele como um novo objeto de desejo. Como se diz na sabedoria popular: “Na cura da dor de um amor antigo, só um novo amor”. É a política internacional se despindo: o que importa é o controle de ativos reais.
É aqui que o jogo fica pesado para nós. As terras-raras – essenciais para tudo, de motores elétricos a mísseis inteligentes – são o novo ouro. O nervosismo de Washington tem nome: China. Os chineses não apenas têm o minério, eles dominam o refino e o processamento tecnológico. Trump corre atrás de um prejuízo em que Pequim já deu a volta no marcador.
O Brasil é peça-chave nesse tabuleiro. Temos reservas gigantescas, e é óbvio que a ganância americana recairá sobre o nosso subsolo, assim como recai sobre o petróleo venezuelano. Mas atenção: ter o minério não significa ter soberania. Se apenas entregarmos a pedra bruta, seremos meros coadjuvantes da sobrevivência deles. Mandar na cadeia tecnológica é o que define quem é dono do próprio nariz. A pressão sobre o Brasil não virá apenas por ameaças, mas por capturas regulatórias e dependência tecnológica.
O que resta ao mundo? A submissão ou a reação. E a reação já está nas ruas e nos gabinetes: coordenação europeia, acordos entre blocos e o fortalecimento dos Brics. O ponto de ruptura será o bolso. Se o dólar for substituído por um comércio multimoedas e sistemas de pagamento que não passem por Washington, a maior arma de coerção americana vira fumaça.
O paradoxo de Trump é que, ao usar o sistema financeiro como arma, ele obriga o mundo a ser criativo fora da órbita do dólar. Ele está tirando o planeta da inércia. Se a hegemonia cair, não terá sido por um ataque externo, mas porque os EUA implodiram ao tentar segurar o mundo pela garganta.
Para o Brasil, o recado é urgente: em um tabuleiro de gigantes desesperados, quem não constrói sua própria autonomia vira combustível para o motor alheio. O tempo da cortesia diplomática acabou; agora é a vez da estratégia de sobrevivência.
Mário Heringer presidente do PDT em Minas Gerais e líder da bancada do partido na Câmara dos Deputados










